Visita guiada ao Palácio da Ajuda – O Quotidiano da Mesa Real 1862-1910

O Clube realizou uma visita guiada ao Palácio da Ajuda – “O Quotidiano da Mesa Real”, onde observámos, pela primeira vez, como se organizavam as refeições de D. Luís I e D. Maria Pia e do seu círculo mais próximo, numa evocação dos espaços de serviço há muito inacessíveis, como as cozinhas, mantearia, arrecadações e copa, num percurso que liga a Sala de Jantar, onde se reconstitui o requintado recheio original, à Sala de Lavagens da Loiça.

A baixela de prata da Casa Veyrat, conhecida pelo nome de “prata do casamento”, constituída hoje por duzentas e sessenta e uma peças, terá sido trazida de Itália por D. Maria Pia quando do seu casamento com o rei D. Luís I, em 1862. O centro de mesa deste conjunto, entregue pela própria soberana ao Banco de Portugal no início do século XX, como garantia de empréstimos bancários que contraiu, foi vendido no célebre leilão das Jóias e Pratas que pertenceram à falecida rainha D. Maria Pia, em 1912, já em plena República. O seu paradeiro permaneceu desconhecido até Dezembro de 2014, altura em que reapareceu no mercado de antiquariato e foi adquirido pela Direcção-Geral do Património Cultural.

Esta sala, obra de Leandro Braga, já desde a década de 1880, apresenta decoração neorenascentista e a ornamentação em madeira de castanho incorporou fragmentos de talha dos séculos XVI e XVII.

Diariamente sentavam-se à Mesa de Estado: o rei, a rainha, o infante D. Afonso, os dignatários de serviço e, por vezes, convidados. A partir da segunda metade do século XIX, o serviço à russa é implementado na corte, substituindo o serviço à francesa praticado anteriormente.

Alguns dos serviços e peças de mesa utilizados, assim como as remessas para outros palácios, eram controladas diariamente pelo Encarregado e pelo Almoxarife – cargos de António Duarte e de Narcizo António de Souza durante anos.

Com o serviço à russa os menus tornam-se indispensáveis. Manuscritos em francês, o menu apresenta-se geralmente enquadrado por um desenho ou aguarela, permitindo conhecer os hábitos alimentares da família real, dando a conhecer não só os pratos mas também  a sua ordem de chegada à mesa.

As baterias de cobre e latão, utensílios de cozinha, de pastelaria ou confeitaria e copa, são testemunho material importante da culinária oitocentista. Refletem o quotidiano do serviço da mesa e as práticas da Casa Real. Na época, as cozinhas situavam-se na ala norte do palácio.

Aqui situava-se a grande Sala de Lavagem. A cada refeição, as peças levadas à Mesa de Estado eram depois trazidas aqui para lavagem, contagem e arrumação. Este seria um lugar de grande  atenção e cuidado, onde se registavam as peças em más condições ou que não deviam voltar a ser usadas.

As cerimónias realizadas noutros palácios movimentavam centenas de peças dos serviços, têxteis e baixelas. A embalagem (nas grandes caixas de madeira que se podem observar na foto) e envio recaíam nas equipas do Encarregado das Mesas de Estado, sobretudo nos Moços das Caixas.

A D. Maria Pia apreciava refeições ao ar livre, no campo ou na praia, entre amigos. O pessoal carregava o material de piquenique – mesas e cadeiras articuladas e tendas – para a mata da Penha Longa, a praia da Adraga ou para o campo, sempre com conforto e etiqueta. Em lugares agrestes, por vezes isolados, em meio do nevoeiro ou na areia, tudo era controlado com rigor – o Mordomo zelava para que nada ficasse para trás.