Veneza em festa

O Clube iniciou as actividades no ano de 2025 com uma visita guiada à exposição “Veneza em Festa”, cujo tema era a pintura veneziana do séc.XVIII, numa colaboração entre o Museu Calouste Gulbenkian e o Museu Thyssen-Bornemisza, Madrid. Apreciámos quadros de pintores como Canaletto, Francesco Guardi, Giambabattista Tiepolo, Michele Mariechi e outros.

“O Grande Canal visto de San Vio, Veneza”, Canaletto 1723-1724, Museo Nacional Thyssen-Bornemisza, Madrid

Canaletto demonstra um esplêndido tratamento das luzes e sombras e um perfeito domínio das perspectivas, concentrando-se em representar com precisão, meticulosamente, os pormenores da arquitectura veneziana, quer nas vedute (vistas panorâmicas urbanas) quer nos capricci (composições que combinavam elementos reais, como edifícios célebres ou monumentos, sobre fundos imaginários).

“A Praça de S. Marcos em Veneza”, Canaletto 1723-1724, Museo Nacional Thyssen-Bornemisza, Madrid

O realismo que caracteriza a pintura de Canaletto permitiu estabelecer a datação segura para a pintura, já que o pavimento da Praça de S. Marcos está representado na altura em que estava a ser renovado, cerca de 1723-1724. A perspectiva converge para a Basílica e o Campanário, com a impressionante torre de 98,6m de altura. O espaço em profundidade é conseguido com o Procuratie Vecchie banhado de luz e Procuratie Nuove reproduzido na sombra.

“O Bucentauro”, Canaletto 1745-1750, da Colecção Thyssen-Bornemisza no Museu Nacional de Arte da Catalunha, Barcelona

A pintura representa o Bucentauro, a galera cerimonial, no Dia da Ascensão, atracada diante da Piazzetta de regresso à Praça de S. Marcos, após a evocação simbólica do casamento entre Veneza e o Mar Adriático.

“Porta Portello em Pádua”  Canaletto 1760, Colecção Carmen Thyssen. Exemplo de um capricci em que Canaletto não revela a preocupação de pintar uma paisagem real, representando parte da muralha defensiva e a Porta Portello.

Francesco Guardi é considerado um dos últimos pintores da escola clássica veneziana a imortalizar o esplendor das cerimónias na Sereníssima.

As suas primeiras obras revelam uma nítida influência de Canaletto, mas com o passar do tempo criou um estilo próprio, caracterizado por uma pintura mais solta, pinceladas vigorosas, sem atender ao pormenor, e uma arquitectura livremente imaginada. Em Guardi, os edifícios muitas vezes parecem estar “derretidos” e afundados na lagoa. Pinta Veneza com céus nublados, no momento do crepúsculo, ao contrário de Canaletto que a pintou em plena luz do dia.

“A Festa da Ascensão na Praça de S. Marcos”, de Francesco Guardi 1775, Museu Calouste Gulbenkian

A pintura representa a Praça no Dia da Ascensão. Avistam-se a Basílica, o Campanário, a Torre do Relógio, o Palácio Ducal e os Procuratie com arcadas, onde se situavam as lojas com objectos de ourivesaria e têxteis. Em primeiro plano, num cenário festivo, silhuetas elegantes imprimindo à pintura o movimento e agitação da festa.

“O Grande Canal junto à Ponte de Rialto”, Francesco Guardi 1780-1790, Museu Calouste Gulbenkian

A pintura representa a Ponte de Rialto avistada na Margem do Carvão. É a única obra da Colecção Gulbenkian que se encontra assinada pelo pintor (na tabuleta situada junto à escadaria).

“Vista do Molhe com o Palácio Ducal”, Francesco Guardi 1780-1790, Museu Calouste Gulbenkian

O pintor descreve minuciosamente nesta veduta os edifícios situados no coração de Veneza. Este ponto de vista frontal inspira-se num quadro de Canaletto que se encontra no Museu do Louvre.

“A Ponte de Rialto segundo projecto de Palladio”, Francesco Guardi 1770, Museu Calouste Gulbenkian

Neste capriccio, Guardi representa a ponte projectada por Palladio para a zona de Rialto que nunca chegou a edificar-se. O movimento de pessoas e embarcações entre as margens do Vinho e do Carvão incorpora elementos reais a algo que nunca existiu.

“Regata no Grande Canal”, Francesco Guardi 1775, Museu Calouste Gulbenkian

Nesta pintura, inspirada numa obra de Canaletto, Guardi dá uma perspectiva mais ampla do Grande Canal, um espaço em profundidade que vai desde a tribuna perto do Palácio Balbi até à Ponte de Rialto no horizonte. À esquerda, o pavilhão flutuante onde eram distribuídos os prémios aos vencedores da regata.

“Regata no Grande Canal junto à Ponte de Rialto”, Giacomo Guardi, década de 1790, Museu Calouste Gulbenkian

Giacomo era filho de Francesco Guardi e na sua pintura há um menor dinamismo, um estilo pouco exuberante e inventivo, repetindo ao longo da carreira motivos de sucesso pintados pelo pai. Neste quadro, a presença de estandartes franceses numa das gôndolas leva a crer que se trata de uma pintura após o fim da República de Veneza.

“O grande Canal com Santa Maria della Salute”, Michele Marieschi 1738-1740, Museu Thyssen-Bornemisza

Michele Marieschi representa nesta pintura a Basílica de Santa Maria Della Salute, de estilo barroco, mandada construir em 1630 pelo Senado por ocasião de uma epidemia de peste, foi terminada em 1687. Vendo o sucesso de Canaletto e influenciado por Luca Carlevarijs, Michele dedicou-se igualmente à realização de vistas urbanas de Veneza.

“A Praça de S. Marcos em Veneza”, Félix Ziem, 1860-1870, Museu calouste Gulbenkian

O pintor francês Félix Ziem representa a Praça de S. Marcos, numa perspectiva oblíqua e uma riqueza cromática que  dá uma nova percepção de luz e cor em pintura.

“A Morte de Sofonisba”, Giambattista Tiepolo 1760, Museu Thyssen-Bornemisza. A pintura representa a morte de Sofonisba, rainha da Numídia, que bebe uma taça de veneno para evitar a desonra de ser enviada para Roma como cativa.

O Bucentauro – réplica da última galera cerimonial do Doge construída em 1729, e destruída pelos franceses em 1798 por ordem de Napoleão Bonaparte. A planta inferior era destinada aos remadores, com capacidade para 42 remos. A planta superior, coberta com um enorme baldaquino, formava uma grande sala revestida de veludo vermelho, utilizada pelas maiores autoridades da República, e terminava na popa com o trono do Doge.

A embarcação era utilizada nas festas, nos cortejos na laguna para receber embaixadores e principalmente na Festa do Dia da Ascensão, dia do casamento simbólico de Veneza com o Mar Adriático. O Doge, o Núncio Pontifício e outros convidados ilustres embarcavam no Bucentauro, que se dirigia à Igreja de S. Nicolau, onde o Patriarca aguardava o Doge para abençoar o anel cerimonial e atirá-lo ao mar, uma alusão do poder naval de Veneza sobre o Adriático. Após a missa, realizava-se um banquete no Palácio Ducal.

Estes dois quadros de Francesco Guardi Ilustram bem a Festa do Dia da Ascensão.